2007-12-04

A problemática da introdução do asfalto na Cultura de Espargos em Alguidares de Baixo

Portugal encontra-se desde a passada quarta-feira, mais precisamente às 15:23, num estado de angústia e expectativa só comparável com a exibição do último episódio da telenovela “O meu cão pensa que é um peru de Natal”, saudosa produção dos já falidos estúdios “Com Audiência Criamos Ansiedade”. As consequências dos tumultos então verificados ainda hoje são visíveis, com as pessoas inconformadas com o desfecho que mostrou o Piruças, o cão protagonista, numa travessa com uma maça na boca.

Com efeito, e para grande surpresa de todos nós, a produção de Espargos de Alguidares de Baixo encontra-se seriamente ameaçada, em virtude do progressivo alcatroamento de todas as áreas cultiváveis desta freguesia. Como é amplamente conhecido de algumas pessoas, os espargos de Alguidares de Baixo são localmente famosos por estarem na base da deliciosa gastronomia Alguidarense-baixense, mais precisamente os Pastelinhos de Espargos, o Bolo de Espargos, o Batido de Espargos e outros tantos exemplos, que não me atrevo a mencionar para não me babar ainda mais.

Há quem defenda que a perda desta produção poderá facilmente ser substituída por Alguidares de Cima, mas a esses eu respondo com o meu mais profundo desdém e gargalhada jocosa. Não queiram, caros ignorantes pouco conhecedores da realidade esparguense, comparar Alguidares de Baixo com Alguidares de Cima, a diferença é abismal, de pelo menos 128 metros. E todos sabemos a diferença que um simples metro significa na textura, no paladar, na rigidez de um belo espargo.

Mas voltemos ao motivo causador desta crise sem paralelo, o alcatroamento. Questionada a Junta de Estradas, foi-nos avançada a explicação que tal medida se devia ao facto de os condutores desta freguesia gostarem muito de praticar rally, saindo frequentemente da estrada e provocando uma poeirada tal que perturba a nidificação dos passarocos que infestam as árvores da zona. Assim, para evitar tais práticas, optaram por alcatroar tudo, lixando assim quem se vê sem um palminho de terra onde fazer derrapar a carrimpana. E pode-se saber quem é que se importa com a treta duns passarocos, que nem deixam estacionar debaixo das árvores sem nos darem uma pintura nova? E olhem que aquilo que lhes sai dum cu tão pequenino é corrosivo como o caraças! Era fazer uma caçada, e limpar o sebo a esses bichos, que mais não sabem do que fazer piu-piu-piu e andar a esvoaçar de um lado para o outro!

Mesmo após espancar violentamente o nosso interlocutor da Junta de Estradas, o máximo que consegui foi a promessa de me irem tapar o buraco na estrada lá ao pé da minha casa, onde já entortei uma jante. Como tal, caros leitores, e apesar de vos parecer radical, peço que peguem em armas e se dirijam para Alguidares de Baixo, por forma a impedir esta catástrofe natural, que pode levar à erradicação total dos espargos dum concelho emblemático do nosso país!

Atentamente,
Pafúncio Miguel de Sousa Barnabé
(Presidente da Associação Alguidarense-Baixense de Produtores de Espargos)

12 comments:

Fausto said...

Salvem os Espargos!

A vanadis estava certa ao dizer que a tua participação ia dar outro ar ao desafio.

Texto muito, mas mesmo muito, bom!

Parabéns :)

São said...

Oh, meu caro Pafúncio!
Estou já de partida para Alguidares a fim de lhe emprestar meu ombro amigo!
Muitos espargos!!

zé (do beco) said...

Acho que te esqueceste duma iguaria feita com espargos: são os peixinhos da horta... ou não? não! acho que estou a meter água. Os peixinhos da horta são feitos com grelos passados por ovo. Bom, afinal os espargos também são grelos, não são? São os grelos das espargueiras.

Bichodeconta said...

Viajar até aqui, é sempre uma bensão para a alma, temos pelo menso garantida a boa disposição e a critica acutilante quando é necessário.. Um beijinho, ell

Rui Caetano said...

Interessante e uma luta que vale a pena.

Vanadis said...

Eu engasguei-me com os espargos várias vezes!! e nem sequer gosto deles!! legumes mai sacanas, páh!

Rafeiro Perfumado said...

Fausto, muito obrigado. Um abraço!

São, e não te esqueças de levar a caçadeira!

Zé do Beco, reconheço a minha falta de cultura culinária. Agora bolinhos de espargos, esses comi muitas vezes!

Bicho de Conta, neste caso a parvoeira acutilante! Beijinho!

Rui Caetano, todas as lutas valem a pena, excepto algumas…

Vanadis, sacanas? Se o presidente da Associação te ouve tás lixada, pá!

Teté said...

Atão pronto, por mim levas a taça (se é que há taça)!

Tinha perdido os desafios, li este texto mais tarde, ontem resolvi colocá-lo nos links e dei com um novo Rafeiro...

ES-PE-CTA-CU-LAR!

Rafeiro Perfumado said...

Teté, caladinha, que isto é só para tornar público dia 16! ;)

Beijoca!

parvinha said...

Que bom espargos, esqueceste-te de escrever as bebidinhas (que não são poucas) que essa malta acompanha os espargos!
BFS
beijo

mariam said...

dada hoje à "santa preguiça" cirandei por aqui...

conheço muito muito bem Alguidares de Baixo, também costumo falar desse sítio com amigos, quando o tema da conversa já era...de referir que muito perto existem também Alguidares de Cima e do Meio, mas esses só aparecem nos mapas à escala de 1/10.000...

e porque hoje é dia dos oceanos
«Novos mareares longe me esperam
Seguirei...»

Boa semana
um sorriso :)

Rafeiro Perfumado said...

Parvinha, certos alimentos são para deglutir sem acompanhamento, dispensando portanto a bebida. Beijo!

Mariam, já para não falar dos Alguidares dos Lados, famosos pelas suas culturas de couve de Bruxelas e arredores! Beijoca!